Texto: Felipe Nascimento/Folha de Pernambuco
Foto: Rafael Neddermeyer/Agência Brasil

À primeira vista, o prazo final para a entrega da declaração do Imposto de Renda 2026 — sexta-feira (29) —  parece distante para muitos contribuintes. Essa aparente folga no calendário, entretanto, pode se configurar numa armadilha para eles. Adiar o envio do documento para as últimas horas não é só uma escolha arriscada, é um convite a dores de cabeça que podem ser evitadas. Protelar a obrigação fiscal para a reta final costuma trazer complicações que vão além do estresse de lidar com a burocracia sob pressão.

Segundo dados da Receita Federal, pelo menos 35% dos contribuintes obrigados a declarar ainda não haviam enviado a documentação até a sexta-feira (22), repetindo o cenário de 2025 e mantendo a tradicional concentração de entregas nos últimos dias do prazo.

A pressa aumenta a chance de erros no preenchimento, esquecimento de informes e omissão de rendimentos extras, como Pix e aluguéis, facilmente detectados pelo cruzamento de dados da Receita. Além disso, mesmo quem usa a declaração pré-preenchida pode parar na malha fina por falta de tempo para revisar divergências e conferir informações importadas automaticamente pelo sistema.

O administrador de empresas Alberto Marinho, faz parte do grupo de contribuintes que costuma deixar a declaração do Imposto de Renda para os últimos dias do prazo. Segundo ele, a prática já virou um hábito, mesmo quando existe a intenção de resolver as pendências fiscais com antecedência.

“Dessa vez, até tinha planejado fazer a declaração no início do prazo, mas os velhos hábitos de deixar para depois e ir procrastinando acabaram fazendo com que ficasse novamente para o final”, afirmou.

Roberto conta que, apesar da correria, costuma reunir os documentos necessários com antecedência para evitar problemas durante o preenchimento. Para ele, informações médicas e bancárias exigem mais atenção e podem gerar divergências caso não sejam conferidas corretamente.

“Desta vez, eu juntei toda a documentação, mas acabei não analisando. Fui deixando todo o processo para o final e agora vai ser bem corrido”, lamentou ele.

Mesmo declarando próximo ao encerramento do prazo, o administrador de empresas disse que nunca enfrentou problemas com a Receita Federal ou caiu na malha fina, mas considera que o preço por fazer tudo às pressas não compensa.

Alberto Marinho revela ainda que a declaração pré-preenchida ajudou a tornar o processo mais prático nos últimos anos, principalmente após a integração de dados médicos e financeiros ao sistema da Receita Federal.

“Hoje muita coisa já aparece pronta, e eu só preciso revisar os valores e conferir as informações com os documentos que tenho comigo. Isso facilita bastante e deixa o processo mais tranquilo”, comentou.

Tempo

De acordo com o contador e advogado tributarista Alexandre Albuquerque, deixar a declaração para a última hora pode comprometer não só a precisão das informações, mas o valor da restituição a ser recebida.

“A maior bronca de deixar para a última hora é o risco de não ter tempo hábil para buscar um documento que você não tem na mão, como aquele recibo médico de fevereiro que você esqueceu onde guardou”, explicou.

Alexandre: “Após o fim do prazo, o contribuinte não pode mais mudar o regime de tributação”

Para ele, o efeito prático mais grave é que, após o fim do prazo, o contribuinte não pode mais mudar o regime de tributação.

“Se você escolheu o modelo simplificado e depois encontrou um recibo que tornaria o completo mais vantajoso, já era. Mandar a declaração agora é a chance de identificar inconsistências e corrigi-las antes que o sistema feche”, aconselhou Alexandre.

Além da dificuldade para reunir recibos e comprovantes, Albuquerque alerta para o aumento de inconsistências envolvendo o eSocial, sistema que unifica informações trabalhistas, previdenciárias e fiscais enviadas pelas empresas à Receita Federal.

“Tem caído muita gente na malha fina por causa dessa divergência entre o eSocial e o informe de rendimento que a empresa entrega. Na maioria das vezes, o que tenho visto é uma falha de informação no eSocial. Como a Receita cruza os dados enviados mensalmente pelas empresas, qualquer ajuste de férias, gratificação ou folha salarial que tenha sido corrigido internamente, mas não atualizado no sistema, pode gerar divergência e levar o contribuinte direto para a malha”, acrescentou o advogado.

Para minimizar erros e facilitar o envio nesta última semana de prazo, o especialista recomenda utilizar a declaração pré-preenchida como ponto de partida. Segundo ele, a ferramenta evoluiu significativamente nos últimos anos e já integra informações de sistemas como o eSocial e a rede de saúde, importando automaticamente rendimentos, dados bancários e honorários médicos declarados.

“O passo um é baixar a declaração pré-preenchida e conferir tudo com calma. Hoje, ela já supre boa parte da ausência de documentos e diminui a correria de última hora”, orientou.

Funcionalidade

Apesar das vantagens, Alexandre destaca que a funcionalidade é mais indicada para contribuintes com declarações menos complexas, como trabalhadores com uma ou duas fontes pagadoras e investimentos mais simples. Já empresários ou pessoas com patrimônio elevado, aplicações no exterior e múltiplos bens devem ter atenção redobrada.

“Para quem tem uma declaração muito complexa, às vezes é até melhor começar do zero, porque a pré-preenchida ainda pode apresentar falhas nesses cenários”, pontua.

Adiamento

Outro erro comum, segundo o especialista, é adiar o envio por medo de esquecer alguma informação. Albuquerque afirma que transmitir a declaração com antecedência pode, na prática, ajudar o contribuinte a identificar problemas enquanto ainda há tempo para corrigir.

“Muita gente fica ‘ruminando’ a declaração em casa, revisando sem mandar. Mas, quando transmite, a Receita já começa o processamento e rapidamente aparece se existe alguma inconsistência”, lembrou.

De acordo com o especialista, caso a declaração apareça como “não processada”, isso geralmente indica divergências que podem ser corrigidas ainda dentro do prazo legal.

“Se você enviar hoje e perceber amanhã que caiu na malha, ainda dá tempo de corrigir, ajustar informações e até mudar do modelo simplificado para o completo, se for mais vantajoso. O problema é deixar para o último dia. Aí o processamento só acontece depois do encerramento do prazo e algumas alterações estratégicas deixam de ser possíveis”, explicou.

O advogado também lembra que o contribuinte pode retificar a declaração quantas vezes forem necessárias, mesmo após o envio inicial. Ainda assim, ele reforça que antecipar o envio reduz riscos e aumenta as chances de receber a restituição mais cedo. Para quem deseja prioridade na restituição, Alexandre deixa uma orientação: cadastrar a chave Pix vinculada ao CPF no momento da entrega da declaração.

“Esse detalhe coloca o contribuinte na fila de prioridade da restituição, principalmente quem não tem prioridade legal por idade ou profissão”, finalizou.