Sócio do escritório, o advogado tributarista Alexandre Albuquerque comentou em entrevista ao Portal Movimento Econômico sobre os impactos da reforma tributária e do fim dos incentivos fiscais sobre a indústria nordestina.
“As indústrias instaladas na região terão de competir em pé de igualdade com o Sudeste e com a China, sem os estímulos fiscais que existiam anteriormente. O risco é de evasão industrial. Muitas empresas podem deixar o Nordeste em busca de condições mais competitivas em outras regiões ou até fora do país.”
A análise reforça a preocupação com a competitividade e a necessidade de políticas de apoio e estratégias de adaptação para que o Nordeste siga atraindo investimentos.
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Por Angela Belfort
Foto: Governo da Bahia/Divulgação
A reforma tributária vai mudar profundamente o ambiente de negócios do Nordeste ao acabar, gradualmente, com os incentivos fiscais baseados no ICMS, considerados um dos principais atrativos para a instalação de indústrias na região desde os anos 1990. Especialistas ouvidos pelo Movimento Econômico afirmam que o desafio é grande, porque a região terá de ganhar competitividade para manter empresas, principalmente as indústrias que fabricam produtos de maior valor agregado. O novo modelo também desloca a arrecadação para o destino do consumo, favorecendo — com maior receita tributária — estados com maior mercado consumidor, como os do Sudeste.
O advogado tributarista Alexandre Albuquerque, do escritório Ivo Barboza Advogados, afirmou que o primeiro impacto será sobre a competitividade. Segundo ele, as indústrias instaladas na região terão de competir “em pé de igualdade com o Sudeste e com a China”, sem os estímulos fiscais que existiam anteriormente. Ele argumenta que as indústrias precisarão rever custos, elevar a produtividade, ganhar escala e reduzir despesas com insumos e mão de obra.
Para alguns setores, “não vai fazer sentido produzir em Pernambuco para vender em São Paulo”, lembrando que “o maior mercado consumidor do País está no Sudeste”. Alexandre acredita que haverá uma migração da indústria que fabrica produtos de maior valor agregado no Nordeste.
O advogado Pedro Victor Vilella, da Alfredo Vilella Consultoria, diz que isso vai depender da capacidade de adaptação da empresa e do setor. “Alguns segmentos podem fazer uma revisão logística. O acesso mais fácil aos insumos também é uma questão logística que pode influenciar a localização”, comentou.
Segundo ambos os advogados, os setores que não serão impactados pelo fim da guerra fiscal são as indústrias de produtos de menor valor agregado, como as de água sanitária, biscoitos e refrigerantes, porque o preço do frete passa a ter impacto no valor final do produto. Por isso, esses setores precisam estar próximos do mercado consumidor.
Pedro Victor Vilella afirmou também que os estados que conseguirem apresentar regras claras sobre a reforma tributária continuarão atraindo investimentos. Ele ressalta que os efeitos dependerão das políticas regionais adotadas pelos estados durante a transição do modelo antigo para o novo sistema tributário, que estará 100% em vigor em 2033. “Dentro das corporações, ainda não está claro como ficará a situação após a reforma tributária. O Nordeste vai continuar sendo um polo de atração de negócios, considerando o Porto de Suape, o Porto de Pecém, a Ferrovia Transnordestina e o Porto Digital”, defendeu Pedro.
A realidade é que algumas empresas já começaram a fazer contas para verificar se é mais viável economicamente manter uma unidade fabril no Nordeste ou transferir a produção para fábricas do Sudeste ou do Sul do País.
O Fundo de Desenvolvimento Regional e a reforma tributária
Preocupada com o fim da guerra fiscal, a Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe) criou um grupo de trabalho para acompanhar os desdobramentos da reforma tributária. O novo sistema tributário criou dois fundos: o Fundo de Compensação do Benefício Fiscal (FCBF), que é transitório, com funcionamento previsto entre 2029 e 2032, período em que os incentivos fiscais serão reduzidos gradualmente, chegando a zero em 2033.
Segundo o sócio gestor da área tributária do escritório Queiroz Cavalcanti Advocacia, Rodrigo Accioly, estão previstos R$ 160 bilhões para o FCBF no período entre 2025 e 2032, compensando as perdas das empresas já beneficiadas, mas sem substituir os incentivos para atração de novos investimentos.
Ainda na reforma tributária, foi criado o Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR), que teria como função substituir os incentivos fiscais via ICMS. Pelo que foi divulgado até agora, é possível perceber que o fundo não demonstra preocupação com a diminuição das desigualdades regionais. Até São Paulo, o estado mais rico e industrializado da federação, receberá recursos do FNDR — por causa da atuação da bancada de parlamentares paulistas — e, no Nordeste, a previsão é de que a Bahia seja o estado que mais receberá recursos. A Bahia é o estado mais industrializado da região.
O coordenador do grupo de trabalho da reforma tributária da Fiepe, Maurício Laranjeira, disse que o maior desafio da reforma será definir como compensar a perda dos incentivos fiscais usados pelos estados para atrair empresas. Segundo ele, é fundamental que as entidades da sociedade civil participem da discussão sobre a aplicação dos recursos do FNDR.Maurício também defendeu que as ações relacionadas à reforma se transformem em política de Estado, e não apenas de governo. “Definir a compensação depois da perda de todos os incentivos fiscais é a parte mais complicada da reforma tributária”, acrescentou.
O executivo alerta que Pernambuco precisará acelerar investimentos em infraestrutura para manter a competitividade industrial após a reforma tributária. Ele cita algumas obras que estão contribuindo para esse cenário, como o Arco Metropolitano e a expansão da distribuição de água e saneamento, entre outras.